Cadeia de soja corre para se ajustar a regras europeias

Tradings deverão criar corredores de exportação para segregar cargas do grão que o Brasil envia ao mercado europeu

 

As novas regras da União Europeia sobre comércio e desmatamento, que começam a valer no fim deste ano, estão fazendo a cadeia da soja no Brasil reavaliar sua logística de escoamento para garantir aos compradores a rastreabilidade da produção.

Carregamentos de madeira, soja, carne bovina, cacau, café, óleo de palma, borracha e derivados e cuja produção tenha tido relação com desmatamentos recentes estarão impedidos de entrar no bloco europeu. A data limite para desmatamento em áreas de produção dos itens é 31 de dezembro de 2020. As demandas servem para todos os países produtores.

A maior parte das exportações brasileiras para Europa não é de soja em grão, mas de farelo de soja, insumo usado na alimentação de gado de leite e de outros animais que fazem parte da dieta do consumidor europeu.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), entidade que congrega grandes tradings agrícolas que operam com soja no país, uma das medidas em vista no Brasil será a segregação de parte da produção. Isso significará reservar plantios, silos, caminhões e navios apenas para atender ao mercado europeu.

A adoção de rotinas de produção e logística da soja específica para a UE implicará em custos adicionais, e o setor não tem ainda clareza se os europeus pagarão mais pelo farelo segregado, disse Bernardo Pires, diretor de Sustentabilidade da Abiove.

Ao mesmo tempo, a medida é uma forma de garantir que o produto demandado pelos europeus não se misture com cargas que não respeitam a regra do bloco.

Uma iniciativa preparatória para a regra europeia tomada do outro lado do Atlântico por um grande grupo privado europeu indica o tamanho do problema.

O grupo Lidl, com mais de 12 mil supermercados no continente e que emprega mais de 370 mil funcionários, tem monitorado navios graneleiros que partem do Brasil rumo à Europa com farelo de soja.

O monitoramento é feito por técnicos de uma organização não-governamental com sede na Suíça, a Earthworm – cujos trabalhos, neste projeto, são bancados pelo Lidl, afirma João Carlos Silva, coordenador regional de cadeias produtivas da ONG suíça no Brasil.

Segundo ele, entre 2022 e 2023, 19 navios com farelo de soja do Brasil foram avaliados. Oito desses navios não atenderam aos padrões exigidos — ou porque foi identificada, no armazenamento, mistura de farelo de soja rastreado com farelo de soja não rastreado, ou porque foi identificado que a origem de parte da carga teve relação com desmatamento.

Entre julho de 2023 e agora, em junho, mais nove navios foram monitorados. Um foi “reprovado” por causa de mistura e outro está sendo avaliado. Nos próximos meses, a equipe da Earthworm vai analisar mais oito navios com farelo do Brasil.

“A identificação de problemas em oito dos 19 navios não teve implicações comerciais, mas fez com que os traders atuassem para melhorar seus níveis de rastreabilidade”, afirmou Silva.

Ele chamou atenção para alguns pontos frágeis da cadeia da soja em relação à EUDR. “O primeiro ponto frágil é a mistura [de farelo rastreado com farelo não rastreado], seja ela feita no porto ou não. O segundo ponto frágil é a dificuldade de realização de avaliação socioambiental em fazendas de soja de fornecedores indiretos de soja [aqueles fornecedores que vendem soja para os grandes produtores inteirarem suas vendas para as tradings]”, disse.

Laurent Javaudin, conselheiro para Clima, Energia, Ambiente e Saúde, da Delegação da União Europeia no Brasil, disse ao Valor que nesse período de preparativos para a entrada em vigor da lei, alguns países estão testando operações logísticas que planejam aplicar quando entrar em vigor a norma.

“Alguns países produtores começaram a organizar ‘simulações’ nos primeiros meses de 2024, a fim de garantir que todas as partes interessadas compreendem o sistema. Por exemplo, foram expedidas 46 mil toneladas de soja da Argentina para a UE durante este exercício com apoio do projeto Visec [plataforma de monitoramento da cadeia da soja argentina]”, disse.

Ele lembra que serão os importadores na Europa quem estarão sujeitos a sanções se não atestarem que suas cargas estarão livres de desmatamento.

“A regulação é sobre o importador europeu, ele será responsabilizado por cumprir as regras e a fiscalização acontecerá pelas autoridades competentes eleitas por cada Estado-membro”.

As autoridades europeias alegam que as novas regras são um esforço para que o continente, e seus consumidores, não contribuam com desmatamento de qualquer tipo pelo mundo.

Em 2023, as exportações brasileiras do agronegócio atingiram a marca de recorde de US$ 166,55 bilhões. Em termos de valor, o complexo da soja foi o número 1 das exportações do agro, com uma fatia de 40,4%. Segundo a Abiove, a União Europeia absorve 14% das exportações do complexo soja do Brasil, principalmente farelo.

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